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Opinião - Assuntos Diversos

 

 

Consciência de ameba - Na Europa e nos Estados Unidos, até ontem turista brasileiro era deslumbrado. Hoje isso mudou: o apedeuta ou a apedeuta portam consciência de rato; de mosca; de ameba...


Láurence Raulino(*)


Turista brasileiro, até ontem, geralmente era conhecido, como quase todo subdesenvolvido sem perspectivas, então, pelo deslumbramento ao viajar para a Europa ou para os Estados Unidos, principalmente. Não era o/a apedeuta de hoje, pois desde pequeno ouvira falar das maravilhas européias e estadunidenses, com os seus destaques, e assim as reverenciava ao se deparar com aquele colosso constituído pelas riquezas do Primeiro Mundo, fossem "as antigas", do velho continente, ou "as modernas", da grande nação americana. Ao voltar para casa, ele ou ela contava sempre as maravilhas para os amigos e parentes, quando exibia os seus registros fotográficos, boçalmente.

As atuais perspectivas brasileiras, no entanto, especialmente em alguns aspectos do contexto econômico internacional, mudaram um pouco o nosso turista, que deixou de ser aquele/a deslumbrado/a de ontem, para se transformar no/a apedeuta que finge irreverência, apenas por ter adquirido consciência de rato; de mosca; de ameba... Isso, ao passar a não atribuir mais, lá e cá, "grande importância" aos desenvolvimentos europeu e estadunidense, inclusive na parte cultural.

Sim, hoje temos consciência(?) do novo papel do Brasil no contexto internacional; de suas potencialidades, que já começam a se tornar efetivas e de todas as suas imensas perspectivas para o futuro... Já a Europa e os Estados Unidos, enquanto isso, declinam..., e agora sob incessante e vertiginosa ameaça da China, colossal..., e também nossa, dirão muitos dos atuais ufanistas, com consciência(?) de ameba ou não - desses últimos, não poucos estão entre os que filiam-se ao "espírito lulista" do ódio aos "olhos azuis", tão idiotas quanto os puramente amebianos.

Dentro desse contexto, portanto, ficou para trás aquele/a deslumbrado/a de ontem, e hoje, assim, o/a apedeuta que vai às compras em Nova York, ou em qualquer outra grande cidade estadosunidense, igualmente a uma grande metrópole européia, o faz agora como antes se fazia na 25 de março. Qual a diferença, afinal?

Turismo mais para passeio, mesmo, com pouca ou nenhuma ênfase em compras(como se isso fosse possível, ao amebiano), não é muito diferente. Muitos agora vão a Paris; Londres; Berlin..., igualmente se ia antes a Foz do Iguaçu, ou no máximo a Buenos Aires - tão européia! Aquele deslumbramento anterior do/a nosso/a turista, passou a ser algo corriqueiro, já virando rotina, seja para simples compras, seja apenas a puro passeio, pelo "Primeiro Mundo".

Conheço uma garota - aliás, não tão garota, pois ali em seus 33 balzaquianos anos -, entre tantas brasileiras, mais jovens ou mais velhas que viajam habitualmente a Nova York(essa já foi pelo menos umas três vezes à "Big Apple", somente este ano), a Miami..., ou para alguma capital européia, que "carimbar o passaporte" passou a ser quase uma rotina. Dali, deslumbramento é coisa de turista do passado, ao ponto de..., em seu cérebro amebiano, inexistir a mínima consciência para a significação de determinados valores culturais, históricos..., em especial na/da Europa, sempre interessante, para quem não tem cérebro de rato; de mosca; de ameba...

Em Berlin - que eu não conheço, pessoalmente -, onde, há 2/3 anos esteve aquela balzaquiana com consciência de ameba, pela primeira vez - para conhecer, "de passagem"... -, nada viu de importante naquilo que até ontem - com o processo iniciado no glorioso dia 09 de novembro de 1989, e lá se vão praticamente 22 anos - foi o "Muro da Vergonha", aquele que simbolicamente dividia o mundo entre livres, pelo lado capitalista, e escravos, pelo lado comunista, o que caiu de podre..., pela opressão e violência que embutia. Não deixou saudades, para os alemães, claro, que, aterrorizados na cidade dividida, junto com o país, o sentiram na carne, mas para muitos brasileiros românticos, em termos sociais e políticos, e para um sem número de outros esquerdistas saudosos e insanos, não!, eis que esses gostariam de vê-lo reimplantado, alías, com o mundo todo vivendo sob o seu domínio.

Mas voltando à garota balzaquina(que - deixo "bem claro" - não existe no plano da realidade, mas apenas na fantasia de um escritor de ficção, ou seja, o que escreve estas tortas linhas), a desimportância que ela "atribuiu" ao extinto "Muro da Vergonha" - ou ao que dele restou - é coisa bem destes dias, os dias em que alguém ter estado ali nada tem mesmo de excepcional, pois as moscas e os ratos berlinenses também lá estiveram, ou ainda estão..., isso, todos os dias.

(*) - advogado, articulista e escritor.