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Opinião - Assuntos Diversos

 

 

O direito à fé

O ser humano vive e pratica a religião desde tempos imemoriais, nos mais diferentes lugares e regiões da Terra, e a ciência, em seus diversos campos de atuação, mas especialmente com o conjunto de estudos desenvolvidos nas áreas da antropologia, da biologia e, inclusive, da história, com destaque, nos explica a origem, as justificativas e as razões daquele - ou seja, nós mesmos - em ainda voltar-se para algo que há pelo menos tres séculos vem sendo diariamente desmontado no confronto da fé com o conhecimento produzido nas academias e em seus labortórios, o qual, no entanto, não explica tudo, hoje. E o que seria explicar tudo, hoje?

A origem do universo e da própria vida, especialmente, seriam duas das principais indagações que desafiam o nosso conhecimento, na verdade adquirido não apenas há 300 anos, mais ou menos, óbvio, mas ao longo dos séculos. De fato, hoje a ciência ainda não tem respostas definitivas ou conclusivas - e talvez nunca as terá - sobre estas duas indagações, que se misturam e se confundem com outras que lhes seguem, ou antecedem, e que seriam mais diretamente de ordem metafísica e de outras áreas da filosofia e do saber, a exemplo daquelas que nos faz perguntar: Por que o universo e a vida foram criados? Por que a humanidade existe, tal como é? Na vida, nós temos uma missão ou não?

Mesmo que a ciência avance a cada dia, hoje dando respostas a/para indagações que ontem não as tinham, é razoável supormos que para muitas perguntas sempre faltarão respostas. À religião, no entanto, ao contrário da ciência, sempre haverá respostas a/para toda e qualquer indagação, face à mesma ter a fé como base de tudo, e para a fé basta acreditar; não é necessário que exista prova, a mínima que seja, do ponto de vista da racionalidade e da explicação que a tenha por base e processo, aquele desenvolvimento típico que nos leva a uma conclusão, momentaneamente definitiva ou não.

Dali, em nosso tempo, igualmente ao que ocorria no passado, aquele remoto ou o mais recente, para grande parte da humanidade basta a fé explicando do fenômeno mais complexo ao mais trivial, seja da vida ou da natureza como um todo. Existem também aqueles que recorrem à fé e à ciência, alternativa ou simultaneamente, os quais talvez se constituam na maior parte da humanidade. Para uma parcela menor da mesma humanidade, no entanto, apenas a ciência atende às suas indagações, e da mesma aguardam a resposta futura - ou não -, quando, no presente, àquelas faltar a resposta cabível ou pertinente.

Grosseiramente falando, então, quanto à religião e à ciência o mundo estaria dividido entre crentes e ateus, sendo estes os que não acreditam em Deus nem na existência de um mundo espiritual, digamos assim, ao contrário dos primeiros, que ainda compõem a incontestável maioria da humanidade. Entre os dois extremos há nuances, com destaque para os agnósticos, que vem ser uma categoria intermediária, e talvez por isso tão atormentada, em muitos casos, quanto muitos dos crentes mais fervorosos, esses pelas mais diferentes "razões", ao ponto de não poucos serem fanáticos.

Mas ali, naquela "divisão", ou "divisões", há também um aspecto relevante e que diz respeito aos que acreditam em Deus e/ou e um mundo espiritual, os quais, efetivamente, se encontram dividos por suas crenças, constituídas pelas mais diversas religiões. Assim, como se sabe, não há apenas a religião, ou uma religião, mas várias, inclusive muitas em guerra ou convivendo lado a lado, mundo afora.

Com os que não acreditam em Deus ou em um mundo espiritual, digamos, assim, não existem as diferenças e as nuances que caracterizam a religião, ou as religiões: na prática e efetivamente todos são ateus em um mesmo e único grau, menos os agnósticos, que não são ateus, rigorosamente, claro; estão na/em dúvida.

No patamar de desenvolvimento conquistado pela humanidade, apesar de suas colossais insuficiências materiais, éticas e morais, principalmente, todas produzidas por paradoxos e contradições sem conta, o ateu, por outro lado, ao tempo em que possa ser considerado alguém com um grau de consciência maior em relação aos que acreditam em Deus e/ou em um mundo espiritual, não se desobriga de considerar e respeitar o direito à fé, toda e qualquer fé, que ainda é professada pela maioria, sob pena de amanhã ter contra si uma hipotética acusação de violar o inalienável direito à mesma fé, além de ser novamente vítima da fúria religiosa, enlouquecida e transtornada, como vista no passado e mesmo em nossos dias, entre as próprias religiões, no Oriente asiático e em muitas regiões da Europa e da África.

Com o uso intensivo e massivo da internet em nossos dias, no Brasil e mundo afora, por outro lado, vimos assitindo a insinuação daquilo que amanhã poderá se apresentar como uma nova fúria religiosa, desta feita entre jovens ateus e crentes, que debatem fé e ateísmo na rede mundial de computadores. Mas o ateu deve respeitar o crente - e isso venho falando na internet, especialmente nas "redes sociais" -, tanto quanto o crente deve respeitar o ateu, que também tem o seu direito de assim ser, qualquer que seja a sua profissão, condição social e opção de vida, etc. É o que impõe a ética, a moral e a civilização, que se mantém por ambas e pelo direito.

Numa palavra, e sem trocadilho de qualquer natureza, o direito à fé é juridicamente "sagrado", e embora assim não o seja o direito a ser ateu, por uma razão intrínseca e opcional, óbvio, este igualmente deve ser havido de forma similar. E aqui, sem querer provocar, por conta de minha transparência e plena convicção, cabe fazer um registro final: Eu acho que no fundo de sua mente e do seu coração - que o último também o tem, como qualquer ser humano, ao inverso do que pensam alguns crentes - nenhum ateu tem prazer em ser o que é. Porém, esta é uma condição de quem não foge da verdade e não fantasia sobre o nosso destino: o nada. Mas o direito de "fantasiar" sobre o destino - céu ou inferno, como no cristianismo, por exemplo -, ou, antes, sobre a nossa presença no mundo não pode nem deve ser "roubado" por nenhum ateu.